Linguística

por catatonizando

­­­Leio as palavras em meu interior. Danificado por intempéries, salpicado por gotas de água salgada, o bom abrigo tenta se proteger das sílabas, e consegue, mas por pouco tempo. Seu idioma é belo e persuasivo; no entanto, inocente, tenho de admitir. Essa sua língua não clama por nada, e isso me encanta, depois me fascina.

Ah, suas palavras. Invasivas, penetram por uma passagem inóspita e esculpem verdadeiros monumentos vivos. Braços, mãos, boca, corpo inteiro, e sabor. Experimentei o gosto dessa abstração e o toque do sonho. Viciei-me. Desejei encurtar os espaços entre as letras e suprimir a pontuação. Descobri-me, então, personagem entre vogais e consoantes.

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Agora – mais cedo do que esperava e mais tarde do que fosse possível suportar –, sou refém de seus hieroglifos. Tornei-me prisioneira de um alfabeto desconhecido –  aquele que diz respeito às sensações, ao não palpável -, e por ele mal posso caminhar sem me perder diante de tantos sabores e de tantos carinhos e de tantos incêndios.

Que tipo de canção é esse que veio me enfeitiçar, pergunto. Mas não posso responder, porque é tudo tão difuso, é tudo tão inconsequente, é tudo tão desconcertante. E a sua delicadeza me entorpece de tal forma que esqueço os pormenores e simplesmente alimento o desejo.

Cheguei longe demais nesse labirinto, embrenhei-me por vielas em que as calçadas são feitas a partir de unidades de uma escrita sagrada, e o céu são enormes línguas de fogo que me puxam e me viram de ponta-cabeça. Não sou capaz de retroceder, desconheço a rota de retorno. Estou perdida perante essa vastidão de caminhos, mas talvez só assim eu possa ser encontrada.

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