catatonizando

palavras de um eu catatônico

Mês: maio, 2015

Querido amigo

Querido amigo,

Apesar dos momentos em que nossas mãos se juntaram para sustentar a matéria dos sonhos que só você e eu conhecemos, e dos sentimentos evocados pela intensidade desse te-quero-bem infinito, quero que saiba que nem sempre vou estar presente. Pode ser daqui a alguns dias ou muitos anos; o incontestável é que farei minhas malas e, assim, do nada, vou sumir da sua vida.

Olha, não vamos mentir um para outro. Você sempre soube que sou feita de inconstâncias e laços rompidos. Pelo meu modo de andar, falar e agir; pelas ligações que não atendi, pelas vezes que escolhi calar, me esconder, te ignorando por conta daquilo que diante de seus olhos são caprichos, mas que na verdade é só essa substância primordial que me constitui.

Raramente te procurei fora de nosso contexto específico. Pouco fiz para expandir o vínculo ao mesmo tempo tão forte e tão frágil de nossa relação. Ou, quem sabe, em outras ocasiões eu tenha te enchido de atenção e tentado realizar seus desejos. Na verdade, não importa. Não importa que tipo de amigo você é ou que tipo de aproximação tivemos, sinto sempre que estou na iminência de te abandonar.

Sabe, não é pessoal. Seja você quem for, creia que nunca tive a intenção de machucar ou ser negligente. Se isso te consola, jamais me esquecerei de quem fomos um para o outro. Nunca deixarei nossas boas lembranças caírem no fosso do tempo. Você permanecerá como uma parte de mim, tenha certeza disso.

Mas é que eu tenho essa necessidade de desaparecer, de me afastar e sucumbir diante desse abismo profundo que habita dentro de mim. Preciso de um tempo comigo. Portanto, não vou te fazer ligações ou visitas. É provável que nosso relacionamento termine, porque nem a maior boa vontade do mundo é capaz de manter uma relação de pé só de um lado.

Me desculpe, amigo, mas eu não sei cultivar laços. Desconheço o tipo de concreto que é utilizado na manutenção dos vínculos.

Talvez eu não esteja disponível para outras relações que não aquela que envolve eu e mim.

O outro

Entre o “mim” e o outro há algo de intransponível. Existe uma coisa tão pesada e ao mesmo tempo tão sutil que não posso encontrá-la ou enfrentá-la face a face. Existe um monstro interno que me faz caminhar cada vez mais para dentro, por uma rota que parece um atalho, mas, que de tão profunda, acaba por me levar a lugar algum. Deparo-me com o nada, então, e lá permaneço, (in)quieta no colo daquilo que me é uma divindade ou, quem sabe, da Mãe em que pousei os olhos no momento em que nasci e jamais deixei de fitar.

À distância, o outro apenas observa minha figura serena, inconsciente da falta de movimento que perdurou por tantos anos que a inércia passou de estado a ser. O outro, criatura da qual ouço falar com frequência e que, no entanto, me é tão estranha quanto o amor de uma vida inteira, não deixo de mim se aproximar. Porque estou fechada como a boca dos silenciosos e morta como alguém que existe, mas deixou de viver.

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