Ser criança

Cinema. Letras. Psicologia. Publicidade. Jornalismo. Design. Relações Internacionais. Biologia. Me pego lembrando todas as opções que figuraram em minha lista de preferências na época do vestibular. Dentre elas, prestei prova para 6, matriculei-me em 4, comecei a cursar 3, e desisti de 2. Tantos caminhos emaranhados, e uma só escolha a ser feita, que se desdobrou em várias.

Hoje, alguns anos depois, ainda não estou satisfeita. Percebo, então, que não deixei de ser aquela menina que está prestes a sair do Ensino Médio para entrar na vida adulta.

Desconheço o estado da não-dúvida. Eu não sei tomar decisões.

Nunca soube.

Prefiro ficar no meu canto, como que me escondendo da vida, como que esperando ela passar por mim sem perceber e, assim, não me impor desafios. Prefiro ficar ao léu, indo e vindo como as ondas de uma praia calma, à vontade dos ventos, sem notar que, ainda assim, estou fazendo uma escolha. Estou tomando a decisão de permanecer inerte, enquanto a vida se resolve a si própria por mim.

A principal expressão de meu vocabulário é “não sei”.

Não sei se amo ou se odeio, não sei se parto ou se fico, não sei se beijo ou se bato, não sei se digo ou se calo, não sei se mato ou se abraço. E se for tudo junto, pode-se bem dizer que é nada.

Não sei se passo horas em frente ao computador vendo filmes e séries ou se me concentro para escrever. Porque, veja bem, se assisto a horas de audiovisual, certamente terei material para meus textos. Mas, se escrevo, com certeza terei minha palavra lapidada. E, olha só, obviamente lendo textos de outros, aprimorarei o meu próprio.

Posso muito bem fazer tudo. Mas acabo não fazendo nada. No interstício entre a ideia de uma atividade e a ideia de outra, acabo caindo no fosso da inércia, da melancolia, do sono profundo causado pelo medo. Ora, se não faço, não tenho que escolher. Ora, se não faço, não tenho como errar.

Eu durmo. E não é preciso nem estar de olhos fechados.

E, por isso, permaneço em um estado constante de insatisfação. Eu deveria ler mais. Eu deveria ser mais culta. Eu deveria saber mais sobre o mundo. Eu deveria socializar mais. Eu deveria ser o que vim para ser, mas o que isso seria?

Sinto-me como a visão que Tomas tem de Teresa. Sou uma criança doente abandonada em um cesto e arrastada pelas águas até sua porta. Sinto-me vulnerável e insegura.

Qualquer um na fila do pão pode notar que não cresci. Meu estado infantil interior se reflete na minha aparência. Todos pensam que sou menor de idade.

E sou mesmo, para além da identidade, uma garotinha que não sabe o que fazer com a própria vida. Talvez seja, até mesmo, um bebê assustado que chora ao dar o primeiro vislumbre no mundo.

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