catatonizando

palavras de um eu catatônico

uma fantasia para o fim do mundo

ai dos inocentes!
acreditam no alívio
causado pela ausência
da dor lancinante
ignorando o encontro
na dor pungente
no sofrimento atroz
do abrandamento do pesar
desconhecendo:
o sofrer surdo
o apelo sem voz
de um peito
pretensamente
curado
é capaz de matar
pouco
a
pouco
como um veneno
toma conta do corpo
enquanto quem não se sabe
enfermo
permanece
a sonhar.

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nada

Diante da folha branca,
do cursor de texto que pisca
como quem pede por uma letra,
de parágrafos vazios e silêncios
sinto o peso daquilo
que poderia ser e não é
que partiu sem avisar
me abandonou
levou minha fé
e pouco deixou
pra eu contar.

Ensaio para uma morte (in)desejada

Clarice, sentada no ônibus, olhava pela janela, pois não havia outro lugar seguro para onde mirar: cercada por estranhos, a ideia de que seus olhos se encontrassem lhe era demasiado assustadora, afinal, como suportar o olhar de um outro ser sobre ela – logo Clarice, que sentia um permanente desconforto por estar em seu corpo, logo Clarice, que não se encaixava em si?

Seu corpo lhe era estranho: nunca soubera como manejá-lo corretamente; era pesado, não em um sentido material, não: era de um peso metafísico. Seu corpo lhe desagradava, mas não tanto, é bem verdade, quanto sua alma. Pela alma, Clarice sentia ojeriza. Era a alma que transferia ao corpo esse peso incalculável que a fazia ter uma aparência de velha, ao ponto de,  mesmo que sua cara fosse bastante jovem, houvesse algo como uma abstração em seus olhos que remetia a uma idosa.

Podemos dizer que Clarice nutria um profundo ódio por si mesma, o ódio em sua forma mais pura: aquela em que não se odeia por admiração, inveja ou amor; aquela em que o ódio existe por si e em si, como um personagem à parte, que figura no centro de todas as coisas relacionadas ao mundo de seu objeto e se alastra por todos os cantos e brechas e caminhos.

Como suportar viver sob uma pele que causa tamanha repulsa, você deve estar perguntando. Mas não, Clarice não suportava – muito longe disso. Ela era obrigada a conviver em si todos os dias. E todos os dias ela sentia raiva de quem era. E todos dias ela lamentava ter nascido – e não digo nem lamentar ter nascido com aquele corpo desagradável e com aquela alma quebrada; nascido e ponto, afinal, estando no mundo, quem poderia ser além de si própria? Ainda que fosse outro, seria ela mesma, com toda essa inquietude vulcânica que emanava do luto de sua existência, e que nunca deixava transbordar para além de seu corpo de maneira voluntária – é claro, pois Clarice não se achava digna de sons ou palavras ou emoções ou tempestades: era desimportante -, mas que saía de si em pequenas doses, através de suspiros, olhares furtivos, semblantes doloridos, passadas trôpegas e pesadas.

No dia em que Clarice nascera, começara a morrer. Não como todos os seres, que quanto mais tempo vivem mais estão próximos da morte. Para Clarice, essa morte não era biológica. No dia em que Clarice nascera, começara a consumir-se em lamúrias em dores em destruição em pesares em lamentos profundos neuróticos dramáticos insolúveis intensos infinitos, e assim continuaria até que se extinguisse.

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